Biometano ganha escala com redes, caminhões e novos projetos no Brasil
Semana foi marcada pelo início da distribuição de biometano em rede canalizada, venda de caminhões dedicados, expansão da produção e avanço de tecnologias para transformar resíduos em energia.
O mercado brasileiro de biogás e biometano encerrou a última semana com sinais concretos de amadurecimento. Os anúncios reuniram avanços na produção, distribuição, mobilidade pesada, certificação e desenvolvimento tecnológico, diferentes partes de uma cadeia que começa a se estruturar de maneira integrada.
Mais do que novos números de potencial, as notícias mostram o biometano se aproximando das aplicações comerciais. O combustível renovável começa a chegar às redes de gás, às indústrias e às frotas de caminhões, enquanto projetos de pesquisa ampliam as possibilidades de produção e purificação.
Confira nosso superclipping e comece a semana atualizado sobre os principais movimentos do setor.
Santa Catarina conecta produção rural à indústria
Um dos movimentos mais relevantes ocorreu em Santa Catarina, com a formalização do primeiro contrato para distribuição de biometano pela rede estadual de gás canalizado.
O combustível será produzido pela H2A, em Campos Novos, a partir de resíduos da suinocultura, distribuído pela SCGÁS e destinado à unidade industrial da Vossko do Brasil, em Lages.
A importância do projeto está no modelo adotado. Ao utilizar uma infraestrutura existente, o biometano deixa de depender exclusivamente do transporte rodoviário e pode conectar regiões produtoras de resíduos agropecuários aos centros consumidores.
O caso catarinense pode se tornar referência para outros estados onde as redes de gás estão próximas de regiões com forte produção agrícola, pecuária ou agroindustrial.
Volkswagen estreia no mercado com 56 caminhões
No transporte pesado, a Volkswagen Caminhões e Ônibus realizou sua primeira venda comercial de veículos movidos a biometano no Brasil.
Foram vendidos 56 caminhões Constellation 26.280 para a Loga, responsável por parte da coleta de resíduos urbanos da cidade de São Paulo. Os veículos possuem autonomia estimada em aproximadamente 300 quilômetros e serão utilizados em rotas urbanas regulares.
A operação é especialmente simbólica para a economia circular. Os resíduos transportados pelas frotas podem ser utilizados na produção do combustível que abastece os próprios caminhões.
Além do ganho ambiental, a compra representa a formação de uma demanda contratada em escala. Frotas cativas, com rotas previsíveis e abastecimento centralizado, estão entre as aplicações mais promissoras para acelerar o uso do biometano no transporte pesado.
São Paulo projeta quase dobrar a produção
O Governo de São Paulo estima ampliar a capacidade estadual de produção de biometano de aproximadamente 700 mil para 1,3 milhão de metros cúbicos por dia até 2027.
A estratégia paulista reúne expansão produtiva, incentivos para veículos movidos a gás, desenvolvimento de pontos de abastecimento e criação de mecanismos de certificação e rastreabilidade.
Quando analisada em conjunto com a compra dos caminhões da Loga e com o avanço do combustível nas frotas do setor sucroenergético, a movimentação indica a formação de um mercado regional mais integrado.
O desafio será transformar os projetos anunciados ou ainda em análise em plantas operacionais, contratos de fornecimento e infraestrutura efetivamente disponível.
Batata-doce entra na rota dos biocombustíveis
A batata-doce também ganhou destaque como matéria-prima para uma nova plataforma de bioenergia.
A Better Group anunciou investimento de aproximadamente R$ 20 milhões em um projeto integrado para produzir etanol, biogás e alimentação animal. A proposta prevê o aproveitamento do amido na produção de etanol, a utilização de coprodutos na nutrição animal e a conversão dos resíduos orgânicos em biogás.
Em São Paulo, uma parceria entre o Governo do Estado, o Instituto Agronômico e a iniciativa privada busca desenvolver variedades de batata-doce com maior teor de matéria seca e amido, direcionadas à produção de etanol, biogás e biometano.
Os projetos ainda precisam avançar em licenciamento, validação agronômica e comprovação econômica, mas reforçam a diversificação das matérias-primas utilizadas na bioenergia brasileira.
Pesquisa busca reduzir custos de purificação
No Ceará, um projeto de R$ 1,43 milhão pretende desenvolver tecnologias nacionais para transformar resíduos agroindustriais em biometano.
A pesquisa reúne instituições como Nutec, Funcap, UFC, Unilab, ITA e UECE. O sistema deverá combinar materiais adsorventes, microalgas, inteligência artificial e modelagem digital para elevar a concentração de metano e remover contaminantes do biogás.
No Rio Grande do Sul, pesquisadores da Univates avaliaram cascas de noz-pecã como material para remoção de sulfeto de hidrogênio. Nos testes realizados, o resíduo apresentou desempenho semelhante ao carvão ativado.
As duas iniciativas apontam para um desafio estratégico do setor: desenvolver tecnologias de tratamento e purificação mais acessíveis, especialmente para unidades de menor escala.
Certificação ganha importância
O avanço físico do biometano vem acompanhado por discussões sobre rastreabilidade e comercialização de seus atributos ambientais.
A entrada da GGT na World Biogas Association amplia a participação brasileira nos debates internacionais sobre certificação de gases renováveis. Ao mesmo tempo, plataformas de negociação começam a se preparar para operar certificados relacionados ao biometano, dependendo da evolução regulatória.
A certificação será fundamental para evitar a dupla contagem dos benefícios ambientais e permitir que consumidores reconheçam o uso do gás renovável, inclusive em situações nas quais não exista conexão física direta com o produtor.
Um mercado começa a tomar forma
As notícias da semana não representam apenas uma sequência de projetos independentes. Quando analisadas em conjunto, mostram diferentes componentes de um mesmo mercado avançando simultaneamente.
De um lado, surgem novas fontes de produção e tecnologias para reduzir custos. De outro, redes canalizadas, indústrias, caminhões e frotas criam canais de consumo. Certificados e mecanismos de rastreabilidade começam a organizar a comercialização dos atributos ambientais.
O biometano brasileiro ainda enfrenta desafios de infraestrutura, licenciamento, escala e disponibilidade de equipamentos. Entretanto, os acontecimentos recentes indicam que o setor começa a superar a fase baseada predominantemente em potencial e projetos demonstrativos.
A molécula renovável passa a ocupar espaço como combustível comercial, solução para resíduos, instrumento de descarbonização e componente estratégico da infraestrutura energética brasileira.