Biogás entra na geopolítica das moléculas verdes, e o Brasil começa a sair da promessa para o jogo real
Com Europa, Estados Unidos e China acelerando políticas para o biometano, o Brasil chega a 2026 com mandato regulatório, certificação de origem e uma das maiores bases de resíduos do mundo. O desafio agora é transformar potencial técnico em produção contratada, infraestrutura e mercado.
O biogás deixou de ser tratado apenas como uma solução local para resíduos e passou a ocupar uma posição estratégica na transição energética global. Em um mundo pressionado por segurança energética, descarbonização industrial, redução de emissões de metano e substituição de combustíveis fósseis em setores de difícil eletrificação, o biometano avança como uma das moléculas renováveis mais disputadas da década.
A escala, no entanto, ainda precisa ser lida com precisão. Embora a produção atual represente apenas uma pequena fração da demanda global de gás natural, o dado mais relevante não é o tamanho atual, mas o potencial: a International Energy Agency (IEA) estima que resíduos orgânicos, agrícolas, urbanos e florestais poderiam sustentar quase 1 trilhão de metros cúbicos equivalentes por ano de biogases no mundo, dos quais apenas cerca de 5% são hoje aproveitados.
Esse descompasso entre potencial e produção explica por que o setor virou pauta de energia, clima, agroindústria, saneamento, transporte pesado e mercado de carbono. O biogás já não é apenas uma tecnologia de tratamento de resíduos. Ele se consolida como infraestrutura energética descentralizada.
Europa lidera, mas ainda corre atrás da própria ambição
A Europa continua sendo o principal laboratório regulatório do biometano. O continente combina metas climáticas, infraestrutura de gás madura, pressão por segurança energética e políticas de substituição do gás fóssil importado. Em 2026, a European Biogas Association (EBA) informou que a capacidade instalada europeia de produção de biometano chegou a 8,2 bcm/ano, alta de 17% frente a 2025, enquanto o número de plantas passou de 1.678 para 1.975 no período de coleta de dados de 2025 a 2026.
Ainda assim, o avanço está longe de garantir a meta política do REPowerEU, que aponta para 35 bcm por ano até 2030. A própria Comissão Europeia reconhece a necessidade de escalar rapidamente a produção e o uso do biometano, com investimento estimado de € 37 bilhões para viabilizar essa ambição.
A novidade institucional de 2026 foi o lançamento do Biomethane Mechanism, plataforma voluntária da Comissão Europeia para aproximar compradores, fornecedores e investidores. A ferramenta busca reduzir assimetria de informação, dar visibilidade à oferta e à demanda e aumentar a transparência regulatória entre mercados nacionais.
O recado europeu é claro: biometano não cresce apenas com tecnologia. Cresce com mercado organizado, rastreabilidade, previsibilidade regulatória e contratos.
Estados Unidos transformam o biogás em RNG
Nos Estados Unidos, o biometano é conhecido comercialmente como Renewable Natural Gas (RNG). A lógica americana é menos centrada na substituição do gás residencial e mais orientada por créditos, transporte pesado, aterros, dejetos pecuários e políticas como o Renewable Fuel Standard e programas estaduais de baixo carbono.
O American Biogas Council (ABC) contabiliza aproximadamente 2.600 sistemas de biogás em operação no país, distribuídos entre fazendas, estações de tratamento de águas residuais, sistemas de resíduos alimentares e aterros sanitários. A entidade estima ainda mais de 17 mil novos locais potenciais para implantação de sistemas, com possibilidade de mobilizar até US$ 450 bilhões em capital para construção.
O ritmo recente mostra força. Em 2025, o setor americano manteve uma trajetória de expansão robusta, com 70 novos projetos entrando em operação e atraindo mais de US$ 2 bilhões em novos investimentos para a reciclagem de resíduos domésticos.
No transporte, a Califórnia segue como vitrine. Frotas comerciais abastecidas com RNG alcançaram resultado carbono-negativo pelo sexto ano consecutivo em 2025, segundo relatório citado pela RNG Coalition.
China, Índia e o Sul Global puxam a próxima onda
Se a Europa lidera em regulação e os Estados Unidos avançam em créditos e transporte, a Ásia aparece como a região onde a demanda futura pode crescer com mais força. A McKinsey estima que a China sozinha responda por cerca de 40% do aumento global da demanda por biometano entre 2023 e 2035, enquanto a demanda indiana deve triplicar no mesmo período.
Essa tendência importa diretamente para o Brasil. A transição do biogás para o biometano não será apenas europeia ou americana; ela tende a ser absorvida também por países com grande base agroindustrial, crescimento energético e pressão por soluções de resíduos. Brasil, China e Índia aparecem no centro desse movimento porque combinam grande disponibilidade de biomassa residual com mercados internos relevantes.
Na Oceania, a Austrália também se posiciona. O país colocou em consulta a ampliação do seu sistema de Guarantee of Origin (GO) para incluir biogás e biometano de digestão anaeróbia, criando uma base de rastreabilidade semelhante ao que passa a ganhar força em outros mercados. A estratégia australiana se conecta ao plano Future Made in Australia, que prevê US$ 22,7 bilhões ao longo de uma década para fortalecer cadeias industriais da transição energética.
No transporte marítimo, Singapura também observa o tema. A autoridade marítima do país informou que pretende abrir licenças adicionais de abastecimento de LNG contemplando soluções com bio e e-metano, sinalizando que o biometano também pode disputar espaço no bunker marítimo de menor emissão.
África e América Latina: potencial alto, mercado ainda em construção
Na África, o biogás ainda é uma agenda mais ligada a acesso à energia, saneamento, cocção limpa e desenvolvimento rural. O programa African Biodigester Component (ABC), com término previsto para dezembro de 2026, busca criar mercados sustentáveis de biodigestores em cinco países, incluindo Burkina Faso, Quênia, Uganda, Mali e Níger.
Na América Latina, a agenda ganha contornos próprios. México, Cuba e República Dominicana aparecem em iniciativas de cooperação para enfrentar o avanço do sargaço no Caribe, com estudos de valorização da biomassa em rotas como biogás, biomateriais e fertilizantes. Na Colômbia, a CEPAL vem destacando incentivos regulatórios e oportunidades regionais para recuperação de metano em estações de tratamento de águas residuais.
Mas é no Brasil que a América Latina encontra seu principal caso de escala.
Brasil: potencial mundial, mercado ainda pequeno, inflexão regulatória
O Brasil reúne uma combinação rara: agronegócio de escala continental, indústria sucroenergética, proteína animal, saneamento, aterros sanitários, resíduos urbanos e uma matriz energética já familiarizada com biocombustíveis. Estudos citados na literatura técnica brasileira apontam potencial de 84,6 bilhões de Nm³/ano de biogás, equivalente a cerca de 44,7 bilhões de Nm³/ano de biometano.
O potencial de curto prazo também é expressivo. Considerando resíduos e efluentes mais facilmente coletáveis em pecuária, indústria e saneamento, o volume atingível em até cinco anos foi estimado em 10,8 bilhões de Nm³/ano de biogás, ou 7,3 bilhões de Nm³/ano de biometano.
A distância entre potencial e produção, porém, ainda é o maior gargalo. Em junho de 2026, levantamento da ABiogás com base em dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontou 20 plantas de biometano autorizadas, somando 1,33 milhão de m³/dia de capacidade instalada. O mesmo levantamento indica que a capacidade instalada cresceu cinco vezes entre 2020 e 2025 e que há 50 plantas em processo de autorização, com mais de 2 milhões de m³/dia de capacidade potencial adicional.
A diferença entre ser promessa e ser mercado está justamente aí: o Brasil já tem potencial, mas agora começa a construir os mecanismos para transformar esse potencial em demanda contratada.
Mandato, CGOB e rastreabilidade mudam a lógica do setor
O ano de 2026 marca uma virada regulatória. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) definiu a meta inicial de 0,5% de redução de emissões de gases de efeito estufa no mercado de gás natural por meio do biometano. Embora abaixo do patamar de 1% previsto originalmente como referência no debate setorial, a decisão cria um sinal de demanda obrigatória e inaugura uma nova fase de precificação do atributo ambiental do gás renovável.
Outro elemento decisivo é o CGOB, Certificado de Garantia de Origem de Biometano. Segundo a ANP, o CGOB é um certificado de rastreabilidade relativo ao volume de biometano produzido e comercializado, emitido por agente certificador credenciado, com informações como origem do insumo e localização da produção.
Esse ponto é central. O biometano brasileiro não competirá apenas como molécula energética. Ele competirá como molécula rastreável, com origem renovável, intensidade de carbono mensurável e potencial de integração com mercados de carbono, compromissos corporativos e políticas de descarbonização.
O Brasil será protagonista?
A resposta mais honesta é: o Brasil já deixou de ser espectador, mas ainda não consolidou o protagonismo que seu potencial permite.
O país tem vantagens estruturais superiores às de muitos concorrentes: resíduos concentrados em cadeias agroindustriais, grandes plantas de aterro, vinhaça e torta de filtro no setor sucroenergético, dejetos da produção animal, demanda por combustível no transporte pesado e indústria interessada em reduzir emissões sem depender exclusivamente da eletrificação.
Mas a liderança não será automática. Para transformar potencial em mercado, o Brasil terá de resolver cinco pontos:
- Ampliar contratos de longo prazo,
- reduzir riscos regulatórios,
- acelerar autorizações,
- organizar a logística de resíduos e
- criar infraestrutura de conexão, compressão, liquefação ou distribuição local.
A janela é favorável. O mundo está sofisticando o uso do biogás: injeção em redes, transporte pesado, créditos de carbono, garantia de origem, biofertilizantes, CO₂ biogênico, SAF, e-metano e rotas industriais de baixo carbono. O Brasil tem matéria-prima, mercado interno e reputação em biocombustíveis para ocupar uma posição relevante nessa nova economia.
A questão não é mais se o país tem potencial. Isso já está demonstrado. A questão agora é se o Brasil conseguirá fazer, em cinco anos, o que não fez nas últimas duas décadas: transformar resíduos em infraestrutura energética, contratos em investimento e biometano em estratégia nacional de competitividade.
Se conseguir, o biogás brasileiro deixará de ser apenas uma pauta ambiental e passará a ser o que o mundo começa a enxergar: uma política de energia, clima, saneamento, agroindústria e segurança econômica.