Biogás e biometano no Sul do Brasil: do passivo ao ativo
O que o 8º Fórum revelou sobre a aceleração do mercado
1. Introdução
Um mês se passou desde o encerramento do histórico 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, realizado em Foz do Iguaçu (PR). O evento, que se consolidou como o principal ponto de encontro do setor energético e agroindustrial do país, reuniu uma pluralidade ímpar de atores: empresários, investidores, pesquisadores, formuladores de políticas públicas e acadêmicos vindos de 15 países e 22 estados brasileiros. Sob a realização conjunta do CIBiogás, Embrapa Suínos e Aves, e Universidade de Caxias do Sul (UCS), com organização da SBERA, o Fórum evidenciou uma premissa inegável: o Sul do Brasil não é apenas um celeiro de biomassa, mas a principal locomotiva da transição energética baseada na economia circular.
A região Sul, caracterizada por sua alta densidade de atividades agropecuárias e agroindustriais, englobando suinocultura, avicultura, abatedouros, fecularias e cervejarias, possui a conjunção perfeita entre a disponibilidade de passivos ambientais e a proximidade com grandes centros consumidores de energia. O que antes era tratado estritamente como um problema sanitário ou um custo operacional de descarte, hoje se configura como um vetor energético estratégico. O biogás e o biometano transcendem a pauta ambiental; eles formam uma cadeia de suprimentos robusta, capaz de gerar empregos qualificados, interiorizar o desenvolvimento, reter divisas e proporcionar uma verdadeira soberania energética.
O distanciamento de um mês após o evento nos permite decantar a euforia dos corredores e analisar, com a frieza técnica e a visão estratégica que o mercado exige, o rico conteúdo técnico discutido ao longo dos nove painéis. Como que acompanha de perto a evolução do setor de biogás, a minha missão neste artigo é traduzir os debates técnicos, regulatórios e comerciais em um diagnóstico profundo e, acima de tudo, em um mapa de rotas acionável.
O mercado de biogás brasileiro cresceu mais de 280% desde 2020. Contudo, o salto da atual capacidade de 1,2 milhão de metros cúbicos diários para a meta de 8 milhões até 2030 e quem sabe para o potencial teórico de 120 milhões de m³/dia, exigirá mais do que entusiasmo. Exigirá arranjos tecnológicos impecáveis, sofisticação financeira, políticas públicas estruturantes e a plena valoração de todos os coprodutos, especialmente o digestato. Destacamos uma síntese do atual estado da arte da indústria da biodigestão anaeróbia no Brasil, com foco nas oportunidades de negócios que devem pautar as agendas corporativas e governamentais nos próximos doze meses.
2. O que ficou claro nos debates
Se houvesse uma palavra para resumir as convergências do 8º Fórum, seria maturidade. O setor deixou o campo das promessas e do pioneirismo isolado para entrar na fase da institucionalização e da escala. Diversos consensos moldaram as discussões, demonstrando o alinhamento entre o poder público, as concessionárias e a iniciativa privada.
2.1. A Força Motriz das Políticas Públicas e a Precificação do Atributo Ambiental
A aprovação da Lei do Combustível do Futuro e a rápida regulamentação por parte da ANP (Resoluções 995 e 996) representam um divisor de águas. O Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB) materializou-se como um ativo financeiro tangível. Com a meta de descarbonização do setor de gás natural estipulada pelo CNPE em 0,5% (cerca de 500 mil m³/dia) para o primeiro ano, criou-se a demanda compulsória e o sinal econômico correto para destravar investimentos. Instituições como o Instituto Totum já operam como Agentes Certificadores de Origem (ACO), e empresas como Petrobras e Gás Verde demonstraram preparo para atuar tanto no mercado regulado (agentes obrigados) quanto no ávido mercado voluntário, impulsionado por compromissos corporativos de ESG e descarbonização de escopo 3.
2.2. Integração, não Competição: Biometano + Gás Natural
Houve uma convergência absoluta de que o biometano e o gás natural de origem fóssil não são concorrentes, mas sim energéticos complementares numa lógica de "adição energética". A Lei do Gás de 2021 equiparou a molécula do biometano à do gás natural, permitindo o uso da infraestrutura de 45.000 km de dutos já instalada no Brasil. Representantes da ABEGÁS e de distribuidoras como Necta, Compagas e Ultragaz deixaram claro que a injeção na rede é o caminho mais eficiente para escoar grandes volumes de biometano.
2.3. Mobilidade Pesada como Cliente Imediato e Viável
O uso do biometano para a substituição do diesel no transporte rodoviário de cargas é a aplicação que apresenta o maior spread econômico e benefício ambiental. O Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome (equivalente a 40 milhões de m³/dia de biometano), importando, por consequência, inflação e volatilidade geopolítica. Abastecer frotas cativas em garagens ou em modelo pit stop pode gerar uma economia de 35% a 40% no custo do quilômetro rodado frente ao diesel, além de reduzir as emissões de CO2 equivalente em até 90% e zerar a emissão de material particulado. Modelos logísticos já não sofrem com tempos de abastecimento longos; tecnologias de alta pressão enchem tanques de carretas pesadas em apenas 8 minutos, rivalizando com o diesel.
2.4. O Biogás como a "Bateria Verde Nacional" no Setor Elétrico
Outro consenso paradigmático ocorreu no painel elétrico. Com o vertiginoso crescimento da energia solar criando a chamada "curva do pato" (excesso de geração ao meio-dia e queda brusca no final da tarde), o biogás não deve mais ser vendido primariamente como energia de base em geração distribuída com preços achatados. A verdadeira vocação do biogás é atuar como energia firme, flexível e despachável. Ele deve funcionar como uma bateria: armazena-se o gás durante o dia e despacha-se a energia elétrica nos horários de ponta. Essa estratégia provou seu valor financeiro no Leilão de Reserva de Capacidade (LR CAP), onde usinas garantiram receitas extraordinárias (R$ 2.700/kW/ano) apenas por estarem disponíveis para socorrer o sistema elétrico nacional.
📊 Destaques de Mercado e Potencial
- Evolução do Setor: Crescimento de 280% desde 2020.
- Capacidade Instalada (Atual): 19 plantas autorizadas produzindo 1,2 milhão de m³/dia.
- Projeção de Curto Prazo (2027): Salto para 3 milhões de m³/dia com 44 novas plantas.
- Projeção de Médio Prazo (2030): Mais 127 plantas em pipeline, alcançando 8 milhões de m³/dia.
- Potencial Teórico Nacional: 120 milhões de m³/dia.
- Segurança Energética: O Brasil consome 70 bilhões de litros de diesel/ano, importando 17 bilhões. O biometano pode neutralizar integralmente essa dependência externa.
3. Desafios que persistem
A despeito da empolgação mercadológica, as trincheiras do 8º Fórum revelaram divergências, dores latentes e lacunas de conhecimento que ainda ameaçam a fluidez da expansão da cadeia, exigindo sofisticação das soluções.
3.1. O Paradoxo Logístico e a Limitação de Infraestrutura
Apesar de possuirmos 45.000 km de rede de distribuição de gás, ela ainda é insuficiente frente à capilaridade continental e à localização descentralizada das fontes de biomassa (interior do Sul e Centro-Oeste). Atualmente, a alternativa imediata é o gasoduto virtual (carretas de Gás Natural Comprimido - GNC). No entanto, o transporte rodoviário do biometano sendo feito por caminhões movidos a diesel foi duramente criticado e rotulado como um contrassenso absoluto. A transição dessa logística para caminhões a biometano ou a rápida interiorização dos dutos é um gargalo físico severo.
3.2. A Assimetria Regulatória Estadual
A distribuição de gás canalizado é monopólio estadual, o que cria um mosaico regulatório fragmentado no Brasil. Enquanto o estado de São Paulo, através da ARSESP, inovou ao criar a "TUSD Verde" (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição Verde), que permite socializar os custos de expansão da rede para conectar usinas de biometano ao condomínio de usuários do gás, outros estados da região Sul ainda engatinham na harmonização dessas regras. A falta de uniformidade nas agências reguladoras estaduais atrasa investimentos de corporações que operam em âmbito nacional.
3.3. O Desafio da Pequena e Média Escala
O panorama setorial mostra que grandes projetos (saneamento de metrópoles e usinas sucroenergéticas) param em pé com facilidade. A divergência reside na escala mínima viável para a capilaridade da região Sul, dominada por pequenas e médias propriedades de suinocultura e avicultura. Há uma lacuna de tecnologia tropicalizada e acessível ("downsizing") para que arranjos produtivos locais e cooperativas transformem volumes menores em operações rentáveis de biometano. O custo do financiamento é outra barreira; pequenos produtores enfrentam juros altos e burocracia excessiva para obter selos verdes e linhas de crédito subsidiadas.
3.4. Estabilidade Biológica e Gestão do Processo
No chão de fábrica, a indústria pena com falhas no manejo da microbiota. Operadores e acadêmicos apontaram a carência crônica de laboratórios de análises bioquímicas e de assistência técnica especializada em pré-tratamento e codigestão. Muitas usinas operam com subdesempenho devido à instabilidade dos microrganismos frente à alta carga orgânica ou variação de substratos. Profissionalizar a operação, reduzindo o empirismo na formulação das misturas ("receita do bolo" do reator), é um desafio urgente para mitigar paradas operacionais e quebras de rendimento.
3.5. Fungibilidade e Padrões Internacionais do CGOB
Há uma incerteza regulatória sobre como o CGOB brasileiro conversará com protocolos internacionais de emissões (GHG Protocol, ISCC, GasREC). Sem um acordo claro de fungibilidade, produtores correm o risco de ter seus ativos ambientais desvalorizados em cadeias de suprimentos globais, o que afeta diretamente empresas exportadoras de commodities que buscam abater a pegada de carbono de seus produtos no exterior.
4. Inovações e negócios em destaque
As soluções e inovações apresentadas confirmam que os modelos de negócio já ultrapassaram a barreira do protótipo, ganhando tração e replicabilidade.
4.1. O Ecosistema da Mobilidade a Biometano
Um dos cases mais aclamados foi o do Grupo Cetric (SC). Iniciando sua jornada em 2019 com uma simples caminhonete adaptada e uma planta de 40 m³/h, a empresa hoje opera 233 caminhões pesados para transporte de resíduos, dos quais 46 são 100% movidos a biometano (quase 20% da frota). A empresa lançou as "UABs" (Unidades de Abastecimento de Biometano) sob o Projeto Rota Azul, produzindo o gás e abastecendo ao longo das rodovias do Sul, substituindo o diesel que outrora custava R$ 3,30 e hoje ultrapassa os R$ 7,20.
A Copersucar, no estado de São Paulo, apresentou a "Bio Rota", onde já opera mais de 70 caminhões pesados a biometano fazendo o escoamento de açúcar e etanol até o Porto de Santos. Em um modelo full service, eles estruturaram garagens próprias de abastecimento rápido. Comprovou-se que a substituição de 40 caminhões a diesel por biometano gera uma economia no custo total de propriedade (TCO) de até R$ 2 milhões anuais, abatendo 10 mil toneladas de CO2. No front das montadoras, a Scania demonstrou o nível de maturidade de seus motores dedicados (não adaptados), que já nasceram sob a norma Euro 6 / Proconve P8, emitindo taxas de material particulado e NOx virtualmente nulas, como atestado pela mega-venda de 501 ônibus a gás para o BRT de Goiânia.
4.2. As Culturas Energéticas: Aceleração da Produtividade
A Embrapa Milho e Sorgo quebrou o paradigma de que o biogás depende unicamente de resíduos de oportunidade. A introdução de culturas energéticas dedicadas, notadamente os sorgos biomassa e o capim-elefante, plantados em áreas de rotação de cultura ou em terras degradadas, provou aumentar o rendimento dos biodigestores de forma assombrosa. Em cases acompanhados pela Embrapa Suínos e Aves, a adição de silagem dessas culturas ao dejeto animal elevou a produção de biogás em cerca de 20%, gerando uma oferta constante de biomassa (independentemente da sazonalidade industrial) com rendimentos de mais de 230 toneladas de massa por hectare. Essa prática fortalece a captura de carbono direto da atmosfera, multiplicando o ativo financeiro do projeto sem competir por terras com a produção de alimentos.
4.3. Atração e Estruturação de Investimentos
Os arranjos financeiros apresentaram uma janela de oportunidade sem precedentes. A FINEP (agência vinculada ao MCTI) reportou o maior orçamento de sua história, operando quase R$ 5 bilhões anuais do FNDCT, com linhas dedicadas a recursos não reembolsáveis (subvenção econômica) para o desenvolvimento tecnológico de empresas com fins lucrativos. Em paralelo, a Embrapii detalhou seu modelo ágil, que conecta empresas com desafios tecnológicos a 99 centros de excelência de pesquisa (ICTs), com aporte imediato de recursos na conta dos projetos em menos de 30 dias. Adicionalmente, mapeamentos como os promovidos pelo MCTI visam agora replicar a maturidade alcançada no Sul para as regiões Norte e Nordeste, sinalizando a abertura de uma nova fronteira nacional de investimentos.
💡 Destaques de Investimento e Financiamento
- FINEP: Orçamento histórico recorde em 2026, com fundos não reembolsáveis para transição energética e inovação corporativa.
- Custos de Financiamento de Frotas: Enquanto o mercado tradicional financia caminhões a diesel a taxas de 22% a.a., e linhas do FINAME giram em torno de 13% a 18%, financiamentos verdes atrelados ao biometano podem atingir prêmios atrativos com taxas de até 9% a.a., viabilizando a rápida renovação de frotas logísticas.
5. O futuro do digestato: o elo perdido da economia circular
Talvez a mais provocativa e fundamental reestruturação mental do evento tenha sido a defesa da mudança de nomenclatura: não devemos falar em "Indústria do Biogás", mas sim em "Indústria da Biodigestão Anaeróbia". O motivo é nobre e pragmático. Focar apenas na molécula do metano significa ignorar metade da equação de valor e perpetuar gargalos ambientais.
O digestato, resultante do processo de fermentação, não pode mais ser encarado como um subproduto incômodo ou um mero efluente a ser aspergido em lavouras vizinhas por força de necessidade. Ele é, de fato, a verdadeira revolução da bioeconomia em um país hiperdependente da importação de fertilizantes químicos, cujos preços estão atrelados à cotação internacional do petróleo e ao dólar.
Debatedores visionários demonstraram que a nova fronteira tecnológica está na extração eficiente de macro e micronutrientes do digestato. O destaque recaiu sobre a produção de estruvita (um precipitado rico em fósforo e nitrogênio), que se apresenta como um fertilizante de liberação lenta, altíssimo valor agregado e extrema segurança agronômica. Aliado a isso, o refino do efluente permite a recuperação da água de reúso, um elemento de sobrevivência para agroindústrias, como fecularias e laticínios, que demandam milhões de metros cúbicos em seus processos e correm o risco de estrangulamento produtivo por estresse hídrico.
Contudo, para que o "elo perdido" seja atado, são necessárias urgentes atualizações regulatórias perante o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para simplificar e padronizar o registro comercial de biofertilizantes oriundos da codigestão de múltiplos substratos. Da mesma forma, as tecnologias de pré-tratamento físico, químico e enzimático, assim como o controle refinado do microbioma do reator (como apresentado por empresas como Bioo, Archea e Ecodata), são vitais. Ao solubilizar os sólidos e garantir a biodisponibilidade dos nutrientes na fase líquida antes mesmo da biodigestão, eleva-se simultaneamente a taxa de metanização e a pureza do digestato final. Sem a valorização econômica do digestato, o TCO das usinas fica manco; com ela, a economia circular se fecha com maestria e a rentabilidade do projeto atinge patamares blindados a crises.
6. Recomendações estratégicas para os próximos 12 meses
À luz do vasto tema debatido no Fórum, o horizonte do curto prazo exige que deixemos as intenções nos auditórios e passemos à execução nos escritórios e frentes políticas. Os próximos 12 meses, até o encontro nacional de 2027, serão determinantes para estabelecer quem vai surfar a onda de lucros da transição energética.
Em primeiro lugar, é premente a articulação entre as Associações (ABiogás, ABEGÁS, SBERA) para impulsionar a harmonização das legislações estaduais, utilizando a "TUSD Verde" paulista como benchmark a ser implementado rapidamente na região Sul (Sulgás, Compagas e SCGás).
Em segundo lugar, a cadeia precisa internalizar o uso do CGOB no mercado voluntário de imediato. A precificação deste ativo não deve ficar atrelada unicamente às obrigações do Combustível do Futuro. O agro exportador brasileiro necessita desses certificados para manter o acesso ao competitivo e exigente mercado europeu.
Em terceiro, do ponto de vista de operação elétrica, as plantas de biogás devem iniciar com urgência a transição de seus planos de negócio do mercado de Geração Distribuída convencional para a estruturação de Leilões de Capacidade e prestação de serviços ancilares ao grid nacional, operando motores com capacidade de flexibilidade e estocagem em horários de pico.
Por fim, o investimento em formação de base, a academia e centros como o SENAI devem abrir turmas massivas para operadores de plantas de biodigestão. Há um "apagão" de mão de obra técnica instalada, e os equipamentos de ponta sofrerão perdas milionárias se forem operados por métodos empíricos.
7. Conclusão
O 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano cristalizou um cenário de otimismo fundado em tecnologia real, arranjos de mercado factíveis e aportes de capital consistentes. A região Sul desponta não só como um hub produtor, mas como o balão de ensaio tecnológico onde os erros já foram cometidos, corrigidos e convertidos em inovação exportável. O alinhamento das políticas públicas com as rotas comerciais provou que o mercado de descarbonização não caminha pelo romantismo ecológico, mas sim pela lógica matemática e implacável da eficiência, resiliência geopolítica e redução de custos.
A transição energética está consolidada na "adição energética". Para as lideranças empresariais, agentes governamentais e pesquisadores, não há mais a desculpa da imaturidade tecnológica. A regulamentação existe, as fontes de fomento público operam em níveis recordes de liquidez e a tecnologia demonstra alta performance. A indústria da biodigestão anaeróbia brasileira tem a faca e o queijo nas mãos para liderar o mercado global de bioeconomia. O futuro não nos espera, ele exige que o abasteçamos hoje.
O que fazer agora? Ações Prioritárias por Perfil
Abaixo, elenco ações táticas que devem compor as prioridades imeditadas dos tomadores de decisão para a captura de valor no setor:
Para o Empresário do Agronegócio (Suinocultores, Avicultores, Usinas, Cooperativas):
- Dimensionar Coprodutos: Refaça a viabilidade do seu biodigestor não focando apenas na economia de energia, mas incluindo a receita direta da substituição de fertilizantes químicos pelo digestato.
- Culturas Energéticas: Avalie imediatamente o consórcio do tratamento de dejetos animais com silagem de sorgo biomassa ou capim-elefante para dar um "boost" de até 20% na sua produção de gás.
- Certificação Rápida: Adeque as medições e registros operacionais da sua planta para estar apto à qualificação como emissor de CGOB frente a uma Agência Certificadora (ACO).
- Fundos Não Reembolsáveis: Busque editais da FINEP ou projetos Embrapii para cofinanciar testes de purificação e codigestão na sua propriedade; não gaste caixa próprio na etapa de risco tecnológico.
- Modelo Cooperativado: Considere a criação de arranjos produtivos locais (microcorredores) com vizinhos para compartilhar os custos de um sistema de upgrading (purificação) para biometano e central de abastecimento.
Para o Financiador / Investidor / Gestor de Ativos:
- Downsizing Financeiro: Crie linhas de crédito ágeis e específicas para projetos de pequena e média escala (CAPEX entre R$ 2 mi e R$ 10 mi), que hoje sofrem com excesso de garantias e taxas inadequadas.
- TCO de Frotas: Direcione capital para operações de aquisição de caminhões a biometano (financiamentos com taxas abaixo de 10% a.a.), ancorados em Contratos de Longo Prazo (PPAs) com fornecedores de biometano.
- Valorar Certificados: Modele debêntures incentivadas (verdes) onde a garantia da emissão ou o fluxo de caixa considere a comercialização dos CGOBs no mercado voluntário.
- Modelos Full Service: Invista em startups e corporações que não vendem apenas a planta, mas o serviço de entrega do gás na ponta (Pit Stops e garagens).
- Biofertilizantes: Inicie o due diligence em projetos de recuperação de nutrientes avançada (como precipitação de estruvita), que em breve terão prêmios elevados no mercado de agronegócio.
Para o Agente Público / Formulador de Políticas / Secretário de Meio Ambiente:
- Fomento Estadual: Implemente políticas de isenção ou forte desconto no IPVA para veículos pesados movidos a biometano em seu Estado.
- Corredores Livres: Articule junto aos entes concedentes a isenção de pedágio nas rodovias estaduais para caminhões a biometano que transportem cargas de origem sustentável.
- Harmonização Regulatória: Estude e adapte rapidamente a modelagem da "TUSD Verde" (SP) para a Agência Reguladora do seu Estado, permitindo a socialização de custos na interligação de dutos.
- Compras Públicas: Emita editais de licitação que exijam percentuais progressivos de ônibus urbanos, ambulâncias e caminhões de coleta de lixo movidos a biometano.
- Desburocratização de Digestato: Trabalhe em conjunto com as secretarias de agricultura para acelerar a validação e a certificação do uso agrícola de biofertilizantes provenientes da codigestão industrial.
Para a Academia, ICTs e Pesquisadores:
- Foco no Microbioma: Amplie pesquisas aplicadas à estabilidade biológica de reatores operando em cargas elevadas de sólidos totais (evitando colapsos operacionais).
- Capacitação Urgente: Formate e oferte cursos técnicos de curta e média duração focados em Operadores de Plantas de Biogás e Manutenção de Equipamentos Eletromecânicos, preenchendo a severa lacuna de mão de obra.
- Monitoramento e Metodologia: Desenvolva protocolos rápidos e baratos para quantificar o ciclo de vida (ACV) e o impacto positivo (Carbono Negativo) do biogás regional.
- Escalonamento Tecnológico: Transfira as pesquisas de extração de valor (estruvita, hidrogênio renovável e SAF a partir do biogás) do nível TRL 3-4 (bancada) para TRL 7-8 (pilotos industriais) em parceria com a Embrapii.
- Redes de Laboratórios: Conecte laboratórios regionais em uma malha única e de resposta ágil para suporte contínuo de análises químicas aos produtores, reduzindo o empirismo das plantas rurais.
Para o Operador Logístico / Transportador de Cargas:
- Quebra de Paradigmas: Entenda que a adoção do caminhão a gás (como os motores Euro 6 originais de fábrica) reduz custos operacionais de TCO e garante autonomia superior a 500 km.
- Parcerias Estratégicas: Procure produtores de biometano no interior ou distribuidoras de gás para garantir abastecimento on-site (na garagem), evitando filas em postos e otimizando o turnaround.
- Monetize a Redução: Venda a sua redução de emissões ("frete verde") com sobrepreço (Premium) para os embarcadores gigantes (multinacionais) que possuem metas severas de redução de Escopo 3.
- Capacitação da Frota: Treine sua atual base de motoristas para operar a nova tecnologia embarcada e desmistificar os receios em relação a autonomia mecânica do gás.
- Adequação de Rotas: Planeje suas operações priorizando os "Corredores Sustentáveis" (como o Rota Azul em SC e os eixos de postos da Compagas e Necta no PR e SP) para máxima eficiência inter-regional.
Agradecimentos
Gostariamos de registrar nossos mais sinceros parabéns à organização do 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em especial ao CIBiogás, à Embrapa Suínos e Aves, à Universidade de Caxias do Sul (UCS) e à SBERA, pela condução impecável deste evento, que já se consolidou como o mais estratégico do setor no país. O altíssimo nível técnico e estratégico das discussões foi fruto direto da brilhante condução dos moderadores, da profundidade e transparência dos painelistas e, sobretudo, do engajamento vibrante do grande público presente, que lotou os espaços e qualificou os debates com uma visão real de futuro. Foi uma imensa honra atuar, mais uma vez, como apoiador e parceiro de divulgação do Fórum, reafirmando nosso compromisso em dar capilaridade e visibilidade às soluções que transformam a transição energética e a bioeconomia em realidade no Brasil. Parabéns a todos que fizeram história em Foz do Iguaçu!