Radar do Mercado de Biogás e Biometano (18 de julho)
Radar do Mercado de Biogás e Biometano (18 de julho)
A consolidação da soberania energética e a força do biometano no Brasil
Ninguém segura mais o biogás, o biometano e a valorização do digestato. O que acompanhamos nesta última semana não é um movimento isolado, mas a eclosão de um mercado espontâneo, capilar e irreversível. Essa revolução silenciosa está sendo tracionada por empresas visionárias, que apostam na construção de um novo ecossistema para a soberania energética brasileira, e, sobretudo, por profissionais obstinados, resilientes e altamente capacitados.
Para que a molécula chegue à rede, há engenheiros e operadores no campo que sabem que não existem fórmulas mágicas. O crescimento do setor exige o verdadeiro domínio da lógica do processo anaeróbio. Garantir a oferta firme desses novos contratos demanda interpretar laudos laboratoriais de forma construtiva, usando os dados operacionais para calibrar reatores e evitar desequilíbrios na biologia, a partir do forte apoio dos laboratório. É essa excelência técnica nos bastidores que permite o avanço das manchetes comerciais.
Abaixo, o nosso super clipping consolidado com as movimentações estratégicas que reconfiguraram o mapa do gás renovável no Brasil nos últimos dias.
1. São Paulo: O laboratório da flexibilidade logística
São Paulo consolida sua liderança (com projeção de alcançar 1 milhão de m³/dia) não apenas pela rede madura da Comgás (com suas usinas OneBio e Costa Pinto), mas pela inovação em infraestrutura. A grande virada é que as concessionárias não são mais o único caminho.
O estado presencia a expansão agressiva dos gasodutos virtuais (carretas de GNC transportando o gás da fonte até as empresas) e o surgimento de infraestruturas dedicadas, como o gasoduto exclusivo para biometano da Necta, na região de Presidente Prudente.
O ambiente regulatório paulista acompanha essa velocidade: a Diretora da SEMIL/SP, Laís Almada, destacou no evento CIBiogás Conecta a isenção de IPVA até 2030 para caminhões a gás, redução do ICMS do biometano para 12% e a tarifa TUSD Verde da ARSESP, facilitando a injeção do gás renovável na malha.
2. Minas Gerais: Interiorização e R$ 1 bilhão no Triângulo Mineiro
O modelo mineiro aposta na inversão logística: levar a rede até a biomassa. O Grupo Cemig/Gasmig, em parceria com a GeoMit e a CMAA, anunciou um investimento de R$ 1 bilhão para implantar 400 km de redes locais no Triângulo Mineiro (Uberaba, Uberlândia, Araxá).
O projeto prevê a injeção inicial de 50.000 m³/dia de biometano a partir de resíduos do setor sucroenergético. Como destacado pelo CEO Gustavo De Marchi no Brazil Journal e no Gas Week, a estratégia usará o relacionamento do programa Cemig Agro para prospectar novos produtores no campo, criando polos regionais de segurança energética antes mesmo da interconexão com as redes de transporte nacional.
3. A Tração no Sul: Paraná e o marco inédito de Santa Catarina
A Região Sul provou que o biometano vai além da cana-de-açúcar. Em Santa Catarina, a SCGÁS, H2A Bioenergia e VOSSKO assinaram o primeiro contrato de injeção comercial a partir de dejetos da agropecuária (suinocultura/avicultura). Esse projeto é um marco na economia circular, pois além do gás, o controle da digestão anaeróbia permite a recuperação de nutrientes (NPK) no digestato, devolvendo biofertilizantes de alto valor ao solo.
No Paraná, o Ministério de Minas e Energia enquadrou no Reidi o projeto da Orizon ("Fazenda Rio Grande"), que purificará biogás de aterro sanitário para produzir 108.000 Nm³/dia de biometano. O transporte será viabilizado por caminhões de GNC até a rede, enquanto empresas como a Compagás ampliam seus corredores verdes pelas rodovias do estado.
4. Centro-Oeste e a força da proteína animal
A capilaridade do gás renovável também se expande pela cadeia da proteína animal. A Âmbar Energia (Grupo J&F) anunciou o investimento de R$ 65 milhões na ampliação da produção de biometano em Mato Grosso do Sul (Campo Grande II), São Paulo e Goiás.
A captura de metano em lagoas e biodigestores de nove plantas frigoríficas (Friboi) adicionará mais de 14 milhões de metros cúbicos anuais à matriz, substituindo o diesel nas próprias frotas e operações, e cimentando a economia circular na indústria da carne.
5. Espírito Santo: O avanço da infraestrutura de abastecimento
A logística na ponta consumidora deu um salto no Espírito Santo. A ES Gás, em parceria com a Marca Ambiental, anunciou R$ 17 milhões para a maior frota de pesados a gás do estado (12 caminhões).
O diferencial estratégico é a inauguração da usina de biometano da própria Marca Ambiental com um posto interno equipado com bicos NGV2 de alta vazão. Essa tecnologia abastece caminhões em apenas 15 minutos, superando o principal gargalo logístico das transportadoras.
6. CIBiogás Conecta Transporte Pesado: A descarbonização nas rodovias
Realizado na sede do Grupo Ultra (Ultragaz), o evento centralizou o debate nacional. O consenso é que o transporte pesado é a principal fronteira de crescimento do biometano.
O evento destacou projetos práticos, como:
- Bio Rota (Copersucar e parceiros), transformando a logística sucroenergética.
- TransJordano, investindo na frota a gás pelo corredor da Rodovia Anhanguera.
- A urgência da rastreabilidade da molécula verde, impulsionada pelo CGOB (Certificado de Garantia de Origem de Biometano) estruturado com apoio do Instituto Totum. Como pontuou a Edge (do grupo Cosan) e a Ultragaz durante os debates da semana, o "off-grid" e o mercado livre já dão opções de flexibilidade para o frotista e para a indústria, garantindo previsibilidade de custo e 99% de redução de emissões.
7. Além do Asfalto: Biobunker e biorrefinarias do futuro
A semana também reforçou a transformação das usinas em verdadeiras biorrefinarias. O setor sucroenergético se prepara para a "Lei do Combustível do Futuro".
Além do biometano, as rotas tecnológicas apontam para a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF), via etanol (Alcohol-to-Jet), e a captura de carbono (BECCS). Prova de que os pesados não se limitam às estradas foi o abastecimento pioneiro do porta-contêineres CMA CGM Iron no Porto de Santos com biocombustível fornecido pela Copersucar e Bunker One, além dos testes de biodiesel marítimo (B100) da ADM, abrindo a fronteira do biobunker no país.
O Veredito do Radar
Esta não foi apenas uma semana de anúncios, mas a consolidação de um novo tecido industrial. O Brasil está construindo, em tempo real, um arranjo complexo que liga a boca do biodigestor ao tanque do caminhão.
E essa engrenagem só gira com a resiliência de um mercado que aprendeu a aliar políticas públicas assertivas, infraestrutura diversificada e profissionais que dominam a complexa engenharia por trás de cada metro cúbico gerado.